Deu no New York Times

Ao vivo, Girl Talk usa um laptop como instrumento e transforma suas apresentações em pequenos pandemônios. Já Greg Gillis é um sujeito aparentemente muito discreto, tanto que até pouco tempo atrás conseguia equilibrar-se quase anonimamente entre seu trabalho diurno em um laboratório como engenheiro biomédico e uma ascendente carreira musical por trás do pseudônimo Girl Talk.

Mesmo quando concede entrevistas como Girl Talk, entretanto, Gillis sempre procurou manter a discrição sobre pelo menos um aspecto: a saraivada de samples que constitui a única matéria-prima de suas canções (e os intrincados aspectos legais por trás desta receita). Ser discreto era mais fácil antes de Night Ripper, disco que estourou graças ao boca-a-boca na internet e o lançou ao semi-estrelato, trazendo-o inclusive ao Brasil para o Tim Festival de 2007. Em entrevista dada durante aquela turnê, Gillis confirmou sua preocupação por estar progressivamente deixando de “voar abaixo do radar”.

Feed the Animals, seu novo disco (lançado este ano à moda Radiohead, ou seja, permitindo que o internauta o compre pagando quanto quiser), está fazendo ainda mais barulho – o que fica evidenciado pelo perfil de Gillis publicado no New York Times de 7 de agosto. O NYT fez o dever de casa, como de costume – diferenciando o método de Girl Talk, que sobrepõe camadas e cadeias de reconhecíveis trechos sampleados, dos astros de hip-hop que repetem exaustivamente um loop específico ou dos mash-ups comparativamente simplórios de artistas como os 2 Many DJs. O jornal não consegue esconder, porém, um certo estranhamento com seu sucesso recente (descrito como “nada mau para um artista cuja música pode ser ilegal”).

De qualquer modo, a matéria é importante não só por trazer para o grande público a discussão sobre o fair use, mas também por um interessante questionamento: segundo o NYT, a incongruência entre o crescimento da popularidade de Gillis e o silêncio até agora mantido pelos normalmente incisivos titulares de direitos das canções sampleadas talvez possa ser explicada pela cautela. O temor não seria mais o da habitual publicidade negativa, mas, quem sabe, o medo de precipitar uma manifestação dos tribunais americanos  legitimando uma forma de música cada vez mais aceita socialmente.

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1 comentário

Arquivado em sobreautoral

Uma resposta para “Deu no New York Times

  1. Morera

    Muito legal o blog, Professor. Vou virar assíduo.

    Bem bacana entender o tal do “fair use” falando de Girl Talk. Sua cara.

    Só espero que o meu rap deixe o Girl Talk trabalhar. Afinal de contas, antecipando-se ao século XXI, o sample é a base de nossa música.

    Abraços e parabéns!

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