Digitalização e resignação

“No frenético volume de arquivos que trafegam a todo instante na rede, há muita coisa boa sendo liberada pelos próprios autores. As intenções são muitas. Uns militam para democratizar a informação, outros procuram mais visibilidade para suas obras e há aqueles que apenas se antecipam ao inevitável: a digitalização de tudo que é digitalizável.”

O trecho acima é de “Livre Acesso“, matéria publicada ontem na Revista O Globo. O texto de Fátima Sá traz algumas considerações sobre o estado do direito autoral brasileiro, enfatizando uma abrangente compilação de quinze sites com conteúdo intelectual disponível. Há, na lista, grandes e conhecidos repositórios internacionais como o Internet Archive e o PLoS, fundamentais para a militância referida na reportagem. O mais interessante na abordagem do Globo, porém, foi o destaque dado às iniciativas de alguns produtores brasileiros de conteúdo que querem crescer e aparecer.

O incremento na visibilidade é um fator citado por Pinky Wainer, sócia da Editora do Bispo, para ter permitido o acesso a vários de seus livros, bem como sua utilização para qualquer fim não-comercial. Pinky, que também alude à idéia de democratização, conclui que “muitas pessoas que fazem download dos nossos livros não os comprariam. Então, a versão online não concorre com a impressa. Ao contrário, ajuda o livro a circular”. Ainda mais ousada é a proposta da Cia de Foto, coletivo de fotógrafos paulistas. Em seu Flickr eles disponibilizam, em alta resolução, um ensaio intitulado “Caixa de Sapato“, que já conta com mais de 180 fotografias que podem ser baixadas para qualquer uso – comercial inclusive, o que é bem pouco usual.

A proposta do selo midsummer madness vai além do espírito livre inerente a quem começou, há vinte anos, como fanzine. Seu sócio Rodrigo Lariú – que vem gradualmente disponibilizando para download gratuito boa parte da discografia de bandas como a seminal PELVs – disse ao Globo que a idéia é transformar o site em ponto de referência para quem procura boas bandas independentes brasileiras. A bela iniciativa não deixa de lembrar um pouco aquelas clássicas reportagens-de-comportamento em que os pais dizem que compraram uma cama de casal para a filha namorar em casa, pois ela irá namorar de qualquer jeito – e pelo menos assim ela continua por perto…

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9 Comentários

Arquivado em sobreautoral

9 Respostas para “Digitalização e resignação

  1. Bruno

    O que dizer? Além de escritora e usuária dos seus conhecimentos jurídicos, principalmente os autorais, eu sou irmã, fato que o sobrenome quase único não me deixa disfarçar!

    Sobre o post…

    Por tudo que observamos, a digitalização será fatalmente inevitável em um futuro próximo. E já está sendo praticada por alguns autores e até editores.

    Mas como fica a questão da editora que não concorda que o autor, detentor do copyright, disponibilize seus textos na rede?

  2. Ricardo Aronne

    Parabéns !!!!!!

    Bela iniciativa é este Blog !!!!

  3. Ei Notre, legal o blog. Esse tema do direito autoral dá pano pra manga, mesmo entre o povo liberal há controvérsias e eu mesmo não tenho uma opinião completamente formada a respeito. Me parece que a internet é o território livre por excelência, e que qualquer tentativa de se regular isso de cima pra baixo vai dar com os burros n’água. Os músicos já perceberam que o modo de se fazer dinheiro é dando shows, com a venda de discos não tá rolando mais. Quero ouvir o que vc pensa a respeito. Abraço

  4. Gustavo Artese

    Mais um em favoritos…
    Parabéns!

    abraço,

    Gustavo

  5. P;R

    Grande Bruno,

    Excelente novidade.

    Eu particularmente sou fascinado pelo mundo digital e, principalmente, pelo acesso à informação.

    Sou fã de carteirinha do mundo digital, talvez porque seja essencialmente um receptor e não um divulgador.

    Apesar de agradecer diariamente pelas informações gratuitas, não sei como seria se eu descobrisse que uma informação minha estivesse sendo indevidamente disponibilizada.

    Acho que precisamos imaginar e criar uma forma de remuneração para o autor que tem sua obra acessadas.

    Gosto da idéia da Banda Radiohead: “faça o download e pague quanto achar que merecemos”.

    Espero que você nunca cobre pelo acesso ao seu blog. Senão, estaremos f…

    Adoramos; parabéns!

    Abraços, P;R

  6. Castilho

    Bruno,

    Grande iniciativa.

    Parabéns

    Abraços

  7. sobreautoral

    GLAUCIA, obrigado pela visita!

    Na vigência de um contrato de edição literária pressupõe-se, para a editora, a exclusividade na exploração. Assim, a princípio, a decisão cabe a ela. Acho que, no fundo, importa mesmo é o modelo de negócios; para algumas editoras, como a do Bispo, “misturar” a publicação normal com a internet tornou-se um caminho; a maioria das editoras tradicionais estrutura sua abordagem de um modo diferente. Mas já há quem opte por publicar exclusivamente na internet… Acho que isto pode dar um post mais à frente.

  8. sobreautoral

    SOL, é ótimo tê-lo por aqui… Como pode ver (diferentemente de você), tenho ainda pouca intimidade com este troço, por isso minha resposta aparece como um outro comentário. Vou aprender aos poucos.

    Por partes: não acho que a Internet seja “livre por excelência”. As leis que existem devem ser aplicadas a ela (na medida em que façam sentido) e novas leis devem abrangê-la (ou, pelo menos, levá-la em consideração), quando possível. Mas concordo com você que elas não devem ser feitas “de cima para baixo”, mas sim têm que levar em conta as peculiaridades do ambiente. Neste sentido a crítica que tem sido feita ao projeto que criminaliza algumas condutas na Internet (e que certamente renderá um post mais à frente).

    Quanto à questão dos shows, concordo plenamente. E há outros meios de lucrar com música que estão sendo devidamente explorados hoje, como os ringtones. Outro setor que cresceu muito, inclusive entre os “independentes”, é o de licenciamento para filmes publicitários. Magnetic Fields, só para citar um, virou trilha de comercial de comida de cachorro. Aqui no Brasil, em 2007, tivemos PELVs e Luisa Mandou um Beijo em campanhas de grandes empresas.

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