O meu é sem

Os protagonistas de You Don’t Love me Yet querem viabilizar a carreira comercial da sua banda – e por isso aceitam até fingir que tocam seus instrumentos (devidamente desligados) numa festa silenciosa promovida por um artista conceitual. Jonatham Lethem, que os inventou, já está em um estágio mais adiantado de sua vida profissional. Dois de seus elogiados livros (A fortaleza da solidão e Brooklyn sem pai nem mãe, ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras) tiveram seus respectivos direitos comprados para filmagem, mas nem o envolvimento de nomes como Edward Norton fez com que os projetos saíssem do papel.

Lethem resolveu então partir para outra abordagem e lançou em seu site o projeto The Promiscuous Materials, permitindo que qualquer diretor interessado adquirisse por um dólar, em caráter não-exclusivo, os direitos de filmagem de qualquer conto ou história de uma longa lista. Após lançar You Don’t Love Me Yet, Lethem elaborou uma proposta ainda mais sofisticada: abriu um prazo para que qualquer diretor enviasse para ele um projeto descrevendo seus planos para adaptar o livro para o cinema. Uma vez escolhido o vencedor, este teria exclusividade nos direitos para filmagem durante cinco anos – e, para ajudar a deslanchar a produção, só teria que pagar alguma coisa a Lethem (2% do orçamento do filme) após fechar um acordo de distribuição.

A criatividade de Lethem não pára por aí: esgotado o período de cinco anos, ele e o diretor ainda manterão os direitos sobre suas próprias obras, mas não poderão impedir a utilização, para qualquer fim, de personagens, falas ou situações do livro (ou do filme). Tampouco poderão criar obstáculos à realização de obras derivadas – “uma peça, uma série de televisão, uma história em quadrinhos, uma montanha-russa, uma ópera – ou mesmo uma continuação, em filme ou livro, com os mesmos personagens”. Até remake está valendo.

Mesmo na minha tradução muito livre do trecho acima percebe-se que Lethem é daqueles autores que escrevem bem de doer (ainda que a trama de You Don’t Love Me Yet tenha altos e baixos que chegam a envolver o seqüestro de um canguru). A leitura de suas reflexões sobre direito autoral é recompensadora: Lethem define seus projetos como “experiências, não alternativas sistemáticas ao jeito normal de fazer as coisas. Eu não estou necessariamente recomendando que outros façam isso, nem eu estou gerindo todos os meus direitos autorais desta maneira”. Segundo ele, são apenas “provocações para pensar sobre estes assuntos de uma forma um pouco diferente”.

Sua última provocação deu certo. Em maio deste ano, Lethem escolheu qual seria a (primeira?) adaptação cinematográfica de You Don’t Love Me Yet. O resultado não poderia ser melhor para ele, que conseguiu muita publicidade, atraiu para o projeto um diretor jovem e talentoso e tem chances reais de ver um livro seu chegar às telas, o que muito provavelmente aumentará ainda mais seu cacife como autor. “Não é o endurecimento dos direitos autorais que vai me fazer ganhar mais dinheiro”, já dissera ao ser escolhido uma das 100 personalidades de 2007 pela Forbes. “São mais leitores”.

Em resumo, dá para escapar das fórmulas pré-moldadas – mas, como Lethem defende, é preciso que os próprios autores, na medida do seu interesse e das suas possibilidades, participem ativamente, definindo o que servirá melhor para eles em cada situação. O ideal é não deixar que o processo – e as escolhas subjacentes – sejam conduzidos apenas pela indústria cultural ou mesmo pelas organizações que vêem o direito autoral de um modo mais aberto. Às vezes é preciso que o próprio autor tente assumir (pelo menos algumas) rédeas e abdique de determinados ingredientes das velhas receitas do direito autoral. 

O meu é sem queijo, por favor.

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1 comentário

Arquivado em sobreautoral

Uma resposta para “O meu é sem

  1. Gordinho

    Excelente iniciativa!
    Adicionado ao Google Reader.

    Abração!

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